Como vim parar aqui?

Sempre ouvi que todas as pessoas têm um algum “podre” no seu passado. Óbvio que comigo não seria diferente. A dúvida que persiste em meus pensamentos é se todas as pessoas têm tantos “podres” quanto eu.
Isso também me faz pensar que a inocência infantil realmente existe (ou existia), pois não lembro de ser assim até uns oito ou nove anos.
Quando tinha sete anos, meus pais se separaram. Não posso dizer que foi um grande trauma, mas também não foi nada fácil aquela mudança toda. Optei ficar com minha mãe.
Algum tempo depois, aproximadamente um ano, minha mãe se casou novamente e fomos morar numa casa alugada num bairro um pouco mais afastado. Adorava morar lá. Tinha muitos amigos da minha idade, mas minha mãe insistia em me mandar para a casa do meu pai todos os finais de semana. Gostava de ficar com meu pai e minhas irmãs (do primeiro casamento de ambos, somos três irmãs), mas queria mesmo era ficar com meus amigos.
Eu estava lá pelos meus dez anos de idade quando começaram a aparecer as primeiras mentiras, todas pequenas e sem muita importância. Na verdade, essas mentirinhas se resumiam à falta de assunto.
Aos onze, as mentiras, começaram a tomar um maior vulto. Quando fui morar em São Leopoldo com minha mãe e meu padrasto, logo fiz amizade com nossas vizinhas. Eu vivia mentindo para elas que a família do meu pai tinha muito dinheiro e que eu tinha um monte de brinquedos na casa do meu pai. Contava histórias fabulosas e adorava que ficassem prestando atenção em tudo que eu dizia. Tudo aquilo que eu gostaria de ter, mentia para minhas amigas que tinha.
Tive problemas de relacionamento com meu padrasto, algumas vezes com agressões, e acabei indo morar com meu pai. Eu tinha doze anos e meu pai também havia se casado novamente. Era uma mulher bem mais jovem que ele, que em seguida começou a me tratar como se fosse sua empregada. Além disso, era muito exigente comigo em relação às minhas notas, o que não era um real problema, pois sempre fui boa aluna, mas me incomodava muito o fato de não me deixar sair para nada que não fosse escola.
Essa foi uma época de vacas magras, e bem magras. Ele não tinha dinheiro para comprar roupas para mim, nem sapatos ou nada mais que uma pré-adolescente de doze anos gostaria. Estava sempre com o mesmo jeans surrado, que muitas vezes lavava e secava com ferro de passar para poder usá-lo no dia seguinte.
Era novata na escola e, para ser mais interessante e poder fazer amigos, já que estava sempre mal vestida e com tênis velhos, menti a todos que fazia ginástica olímpica. Como tinha muita elasticidade, mostrava alguns truquezinhos e todos acreditaram na minha primeira grande mentira.
Naquele ano, quase participei do primeiro e único torneio de handebol da minha vida (sempre fui péssima nesse esporte!). Não lembro ao certo por que, mas minha madrasta foi comigo à escola naquele sábado. Nessa ocasião, ela descobriu minha mentira e contou a todos. Foi minha primeira vergonha por mentiras que contei. A sensação de ser descoberta foi simplesmente estarrecedora. Além disso, tomei uma bela ralhada do meu pai quando cheguei em casa e fiquei um bom tempo de castigo.
Pequenos parênteses sobre meus pais: Morei da separação aos 11 anos com minha mãe e saí de lá por causa de um padrasto que me quebrou um dedo (já tinha dito que tive problemas sérios com ele). Tentei morar com meu pai, o que durou um curto período de apenas seis meses, pois também não agüentei minha madrasta. Meu refúgio foi a casa dos avós paternos, o que não foi menos difícil do que quem é educado pelos pais, mas pelo menos eles gostavam de mim.
Meu pai é e sempre foi um ser problemático. Minha avó paterna sempre me disse que ele era engenheiro, mas na verdade ele é só um projetista. Desde que “me conheço por gente”, meu pai está sempre endividado, sem dinheiro, passando por dificuldades, trabalhando demais, com problemas... Ufa! Sempre foi assim. Meu pai se casou três vezes. Sua atual esposa é um amor de criatura. Brinco que ela é minha “Boadrasta”.
Minha mãe sempre foi um ser equivocado. Técnica em Análises Clínicas, começou a faculdade de Bioquímica que nunca terminou. Minha mãe é do tipo de mulher que não sabe viver sozinha. Ao todo, passou por quatros casamentos. No atual, ela vive com um ermitão, um tipo de ser introspectivo e anti-social que ela ainda teima em tentar me convencer que é um marido sensacional. Hoje minha mãe é funcionária pública. Pelo menos tem a sua estabilidade. Fecha parênteses!
Essa compulsão por mentiras para parecer ser alguém melhor, ou para que as pessoas gostassem de mim, foi ficando cada vez pior durante a adolescência.
A vida morando com a Vó e o Vô era mais tranqüila, mas não menos escassa em algumas coisas. Enquanto a geladeira era abarrotada de comida, eu tinha de me virar para passar o ano inteiro com uma única calça jeans. Xampu? Um tubo tinha de durar o mês inteiro. Condicionador? Para que? “Não precisa, portanto, não será comprado”.
Aí começaram as mentiras novamente. Dessa vez, com força total.
É comum na adolescência a gente ter aquela turminha fechada que anda sempre junto. Na minha adolescência, éramos as Três Mosqueteiras, literalmente, pois éramos quatro.
Não lembro de todas as minhas mentiras naquela época, mas sei que com certeza absoluta foram muitas e muitas. A pior de todas foi a que quase me fez perder a amizade das minhas melhores amigas (na época).
Numa determinada ocasião, estava conversando com alguns amigos (homens) e eles falavam como uma das gurias era “gostosa”. Corroída pela de inveja e pelo ciúme, menti que de gostosa ela não tinha nada. Menti que ela usava enchimentos nos seios e na bunda, e que descoloria os pêlos dos “países baixos”.
Ficamos de mal por uns dois meses. A reconciliação foi fantástica, me sentia completa novamente, mas não aprendi com meu erro. Continuei a mentir.
Infelizmente, isso se tornou um hábito (horrível). Fui crescendo e, à medida que isso acontecia, as mentiras estavam sempre presentes na minha vida.
Mentia sobre minha vida, quem eu era, o que possuía, no que trabalhava, onde estudava, que curso fazia, sempre da maneira que considerava mais proveitosa para a situação. Minha compulsão por ser uma pessoa amada e admirada me fez contar as maiores mentiras da minha vida. Menti ter graduação superior, menti ter tido carteira de motorista um dia, sem ao menos saber dirigir direito.
Numa determinada época da minha vida, trabalhei como caixa numa grande empresa. Na maior cara-de-pau, desviava dinheiro. Quando meu gerente descobriu, não admiti de maneira alguma tudo que havia feito. Muito pelo contrário: aceitei a ajuda de um advogado de porta-de-cadeia, amigo de uma das minhas irmãs, e acabei até entrando na onda dele. Ele me convenceu que minha única escapatória era mentir que ele me assediava sexualmente. Não consegui levar essa história muito adiante. Pelo menos tenho esse consolo: só consigo mentir de verdade para me enaltecer, não consigo fazer mal a outras pessoas.